A Mesquita Antiga de Társo — uma igreja dos cruzados que se tornou um minarete do Oriente
No coração da antiga Társo, na rua principal da cidade antiga, ergue-se um edifício onde um milénio de história se condensou numa única fachada. A Mesquita Antiga de Társo é uma antiga igreja, construída em 1102 durante a Primeira Cruzada, quando os normandos reconquistaram a cidade aos seljúcidas. Reza a lenda que o templo foi dedicado ao apóstolo Paulo — natural de Társo, um dos principais apóstolos do cristianismo. Em 1415, Ahmet-bey, da dinastia Ramazanoglu, transformou a igreja numa mesquita, conferindo ao edifício um segundo renascimento espiritual. A Mesquita Velha de Társo, ou Kilise Cami — «Mesquita-Igreja» — ainda conserva no teto afrescos com a imagem de Jesus e dos quatro evangelistas: um testemunho silencioso da vida que aqui existiu anteriormente.
História e origem da Mesquita Antiga de Tarsus
Társo — uma das cidades mais antigas da Ásia Menor, situada na província de Mersin, no sul mediterrânico da Turquia. Ao longo de milénios, passou de mão em mão: a Pérsia aqueménida, o helenismo, Roma, Bizâncio, os califados árabes, o reino arménio da Cilícia, os seljúcidas, os cruzados, os Ramazanoğlu, os mamelucos e o Império Otomano. Cada um dos senhores deixou a sua marca no tecido urbano, e o edifício da atual Mesquita Antiga é a encarnação viva dessas camadas.
Em 1102, quando a cidade se encontrava sob o controlo das tropas da Primeira Cruzada, foi erigida uma igreja neste local. Segundo a tradição, foi consagrada em nome de São Paulo — nascido precisamente em Társo. É importante esclarecer: esta igreja não deve ser confundida com outro monumento de Tarso — a igreja de São Paulo do século XIX, que é frequentemente confundida com a mesma construção.
Um episódio notável ocorreu em 1198: na altura, Tarso fazia parte do Reino Arménio da Cilícia. Nesta mesma igreja foi coroado o primeiro rei arménio, Levon I, da dinastia dos Rubenidas — o cardeal Konrad von Wittelsbach, em representação do papa, colocou-lhe a coroa em nome do Santo Sé.
Em 1359, Tarsus passou para a dinastia turca dos Ramazanoğlu e, em 1415, o governante Ahmet-bey (anos de reinado 1383–1416) transformou a igreja numa mesquita, acrescentando um minarete. O edifício recebeu vários nomes: Eski Cami («Mesquita Velha»), Kilise Camii («Mesquita-Igreja») e Baytemür Camii. Foram realizadas restaurações documentadas em 1868 e 1900; a última renovação foi concluída em 2007.
Arquitetura e o que ver
A Mesquita Antiga de Társo ocupa uma área de 460 metros quadrados, juntamente com o pátio adjacente. As dimensões internas do edifício são de 19,3 × 17,5 metros; a largura da nave é de 12,6 metros. Trata-se de uma construção relativamente pequena, mas ricamente detalhada, na qual se percebe a influência gótica.
Fachada e entrada
A entrada principal situa-se no lado oeste. A fachada está decorada com arcadas cegas — nichos arqueados em relevo, sem abertura: um elemento característico da arquitetura gótica. À entrada, encontram-se duas semicolunas de alabastro. Nas paredes sul e norte da nave encontram-se semicolunas de granito, presumivelmente feitas a partir de material de construção de edifícios anteriores que aqui existiram.
Telhado e estrutura
No exterior, o edifício é coberto por um telhado de duas águas — não por uma cúpula. Esta é uma característica preservada da basílica gótica original: os cruzados construíam de acordo com os cânones da Europa Ocidental, onde os telhados de duas águas eram a norma.
Afrescos do teto
O principal valor histórico do interior são os afrescos no teto. Na parte central do teto está representado Jesus Cristo; aos seus lados, os quatro evangelistas: a leste, João e Mateus; a oeste, Marcos e Lucas. Estas pinturas são um legado direto da vida eclesiástica dos séculos XII a XIV. O facto de terem sobrevivido à transformação da igreja em mesquita constitui uma verdadeira raridade e um precedente historicamente significativo da coexistência do património cristão e muçulmano num único espaço.
Minarete e torre sineira
O edifício tem dois elementos verticais de destaque: o minarete no canto sudoeste — uma adição da época de Ramazanoğlu — e a antiga torre do sino no canto nordeste — um vestígio da história da igreja. A dualidade destas duas torres cria uma imagem visível da biografia espiritual do edifício.
O mihrab e a adaptação à cultura islâmica
Foi adicionado à parede sul um mihrab — uma nicho que orienta os fiéis na direção de Meca. Assim, o edifício adquiriu uma planta característica das mesquitas do tipo «ulu cami» (mesquita catedral), mantendo, ao mesmo tempo, a sua estrutura retangular original.
Factos interessantes e lendas
- Em 1102, quando a igreja foi construída, Társo fazia parte da zona da Primeira Cruzada. As tropas normandas de Tancredo da Galiléia ocupavam parte da Cilícia; a presença dos cruzados explica o caráter gótico da arquitetura — de raízes ocidentais.
- Em 1198, neste edifício teve lugar a coroação de Levão I — o primeiro rei do reino arménio da Cilícia. O cardeal Conrado de Wittelsbach, arcebispo de Mainz, colocou-lhe a coroa em nome do papa, e mais tarde o imperador alemão enviou também uma coroa simbólica. Esta coroação transformou o Estado arménio num reino europeu reconhecido.
- O edifício combina elementos cristãos e islâmicos que não foram destruídos, mas coexistem: arcos góticos, colunas de granito, afrescos no teto com Cristo e os evangelistas — e o mihrab, o minarete, uma mesquita em funcionamento. Esta sobreposição de épocas é uma raridade arquitetónica.
- O nome «Baytemür Camii», que aparece em fontes históricas, está possivelmente ligado ao nome da pessoa que conduziu uma das restaurações. Ainda não foi possível determinar a origem exata desta denominação.
- A mesquita está localizada a uma curta distância a pé de outros monumentos históricos de Tarsus: a igreja de São Paulo do século XIX, o Poço de São Paulo e outros locais relacionados com o legado apostólico da cidade.
Como chegar
Tarsus fica a 30 km a leste de Mersin e a 65 km a oeste de Adana. O aeroporto mais próximo é o de Adana (ADA). De Adana para Társo, há autocarros e miniautocarros regulares; a viagem demora cerca de 45 minutos. De Mersin, são aproximadamente 30 a 40 minutos de autocarro ou dolmuş.
A mesquita está localizada no centro de Tarsus, na principal rua histórica. GPS: 36,9178° N, 34,8978° E. A pé, a partir da estação rodoviária de Tarsus, são cerca de 15 minutos. A maioria das atrações turísticas de Tarsus concentra-se num raio que pode ser percorrido a pé; por isso, ao chegar ao centro, é possível visitar todas elas sem necessidade de transporte adicional.
Dicas para o viajante
A mesquita está aberta ao público diariamente, com entrada gratuita. Recomenda-se aos turistas que não visitem durante a oração — isto permitirá observar tranquilamente o interior e apreciar os afrescos no teto. As mulheres devem usar um lenço; os sapatos devem ser retirados na entrada.
Leve consigo uma lanterna ou utilize a lanterna do telemóvel — a iluminação no interior é bastante modesta e os afrescos no teto exigem boa luz para uma observação detalhada. Uma lente grande angular ou o modo «grande angular» no smartphone ajudará a captar todo o espaço interior.
Em Társo, vale a pena visitar também os monumentos vizinhos: a igreja de São Paulo (Aziz Pavlus Kilisesi) com o poço do apóstolo, a porta romana de Cleópatra e a cascata de Társo Şelalesi, dentro dos limites da cidade. Tarsus é a terra natal do apóstolo Paulo, pelo que toda a zona histórica está repleta de associações bíblicas. Para uma visita mais aprofundada, é melhor reservar um dia inteiro. A Mesquita Velha de Tarsus é um monumento raro, onde se fundem num único espaço uma basílica gótica, a coroação arménia e o culto islâmico, o que a torna um dos locais históricos mais complexos de toda a região mediterrânica da Turquia.